Imunidade Inata versus Imunidade Adquirida

IMUNIDADE INATA

O organismo humano, de acordo com o Manual do CRIE (2006, p. 23), “através de vários mecanismos, como o fluxo constante de líquidos, movimentos peristálticos, renovação celular, presença de substâncias microbicidas, etc., está constantemente eliminando microrganismos de sua superfície cutaneomucosa”.   

Peakman e Vergan (2011, p. 12) conceituando e classificando a imunidade inata afirmam que: As barreiras físicas são a pele e as mucosas, as secreções, que continuamente lavam e limpam as superfícies mucosas, e os cílios, que ajudam a remover detritos e estruturas estranhas. Fatores imunologicamente ativos presentes nas secreções das mucosas, no sangue e no líquor (os humores) são denominados humorais. Entre estes, os mais importantes são o complemento e a lecitina ligante de manana, assim como as demais opsoninas (uma opsonina auxilia a digestão de bactérias por neutrófilos), como a proteína C-reativa e as enzimas proteolíticas (p. ex., a lisozima). Os componentes celulares são os neutrófilos, os eosinófilos, os macrófagos, os mastócitos e as células natural killer - NK.

Observa-se que a imunidade inata não é específica, está presente ao nascimento, é considerada a primeira defesa celular do organismo com atuação imediata contra qualquer agente e, não é capaz de gerar memória imunológica. Leva o mesmo a responder sempre da mesma maneira, qualquer que seja o agente agressor, não modifica sua intensidade com a exposição e possui três componentes: físico-químico, humoral e celular. Ou seja, é constituída por mecanismos superficiais e profundos que dificultam a penetração, a implantação e/ou a multiplicação dos agentes infecciosos no organismo.

Em concordância com Guyton & Hall (2006), Murphy, Traves & Walport (2010, p. 44) afirmam que “nosso organismo está constantemente exposto a microrganismos presentes no ambiente, incluindo agentes infecciosos que foram disseminados por indivíduos infectados”.

Sabe-se que a doença infecciosa origina-se do encontro e da interação entre um microrganismo e um hospedeiro. Caso ambos não apresentem estruturas moleculares (proteínas de superfície) que permitam sua aderência/fixação, não há possibilidade de infecção. Havendo aderência, o microrganismo se multiplica e há colonização e a infecção ocorre de fato, quando o microrganismo invasor provoca uma resposta imunológica ou efeitos patogênicos no hospedeiro invadido (BRASIL, 2006).

Assim como acontece com os eventos adversos pós-vacinação em que diferentes fatores interferem no seu surgimento, a presença ou não de infecção dependerá também, do estado imunológico do hospedeiro, da dose infectante e, da virulência do microrganismo.

Por ser um fator inerente ao microrganismo infectante, a virulência é estudada pela Microbiologia, enquanto a resistência do hospedeiro é estudada pela Imunologia. A virulência significa o conjunto dos fatores agressivos, próprio de cada microrganismo potencialmente patogênico e utilizado para lesar os tecidos do hospedeiro infectado.

A resposta de defesa e proteção a determinado microrganismo conforme apontado por Malagutti (2011) acontecerá, a princípio, a partir do reconhecimento do patógeno ou de moléculas estranhas, para logo depois ativar os mecanismos de defesa mais específicos para sua eliminação. Desta forma, caso o microrganismo possa transpor as barreiras iniciais (anatômicas e fisiológicas) e invadir o hospedeiro, ou se mesmo sem penetração houver agressão celular local, outros mecanismos de defesa serão acionados. (BRASIL, 2006).

Quando imaginamos uma vacina, o que logo nos vem à mente é se ela será capaz de oferecer proteção e se está será de longa duração. A proteção gerada por uma vacina está diretamente relacionada com sua capacidade de ativar o sistema imunológico e induzir a produção de moléculas específicas, como os anticorpos.

Conforme já relatado, o sistema imunológico engloba todos os mecanismos usados pelo organismo para se proteger da invasão de agentes agressores. Envolve a ação mútua de moléculas, células, tecidos e órgãos especiais que agem de forma organizada por intermédio de uma série de processos que definem a resposta imunológica (MALAGUTTI, 2011).

O organismo tem um sistema especial para combater os diferentes agentes infecciosos e tóxicos. Esse sistema é composto por certos leucócitos (glóbulos brancos) e células teciduais derivadas dos leucócitos. Essas células atuam em conjunto de duas maneiras, para evitar a ocorrência da doença: (1) destruindo as bactérias ou vírus invasores, por fagocitose e (2) formando anticorpos e linfócitos sensibilizados, que podem, isoladamente ou em conjunto, destruir, ou evitar, o invasor (GUYTON & HALL, 2006).

Fagócito perseguindo uma bactéria

A fagocitose é a ingestão de partículas sólidas por células. A membrana plasmática envolve o microrganismo, ocorre à formação de grandes vesículas que, ao se fundirem com os lisossomos, destroem os invasores por digestão intracelular. Durante este processo, sinais flogísticos/inflamatórios (rubor, tumefação, calor e dor) são evidenciados (FORTE, 2007; BRASIL, 2006). Como consequência à lesão tecidual provocada surgem mediadores químicos denominados proteínas de fase aguda, como a proteína C reativa, que ao se fixar a componentes polissacarídicos da parede celular de várias bactérias, ativa o sistema complemento (um conjunto de no mínimo 30 proteínas plasmáticas que podem fazer parte da resposta imunológica) e facilita a fagocitose. Presentes no soro sanguíneo de pessoas normais são responsáveis pela formação de fatores quimiotáticos, anafilatoxinas, opsonização e lise de células ou de microrganismos, podendo ser ativadas por via clássica ou por via alternativa, ou seja, a partir de interação com complexos antígeno-anticorpo das classes IgM ou IgG, ou por interação direta com lipopolissacarídeos, toxinas bacterianas e outras substâncias, respectivamente (FORTE, 2007; BRASIL, 2006).

                                                       Resposta Inflamatória

Mesmo desagradáveis, os fenômenos inflamatórios são necessários ao mecanismo de defesa, uma vez que a vasodilatação e o aumento da permeabilidade capilar permitem também o acesso de enzimas do sistema de coagulação ao tecido lesado, formando-se fibrina, que ajuda a isolar o local infectado do resto do corpo.

Diante do exposto e conforme atestado por Abbas, Lichtman e Pillai (2011) a imunidade inata pode contar com outros mecanismos de defesa caso haja falha no sistema de prevenção de entrada de microrganismos como, por exemplo, as proteínas do sistema complemento, que reconhecem e se ligam a membranas de microrganismos, facilitando a destruição desses agentes infecciosos e, as citocinas, que funcionam também como mediadores da inflamação e moléculas reguladores do sistema imunológico. Barreiras mecânicas, fagócitos atuando por meio de quimiotaxia seguida por fagocitose, sistema complemento e células natural killer ou NK, são os componentes da resposta inata.

A doença infecciosa pode encerrar nessa fase com a destruição dos microrganismos ou caso a imunidade natural seja insuficiente, são colocados em ação outros mecanismos imunológicos objetivando criar defesa específica contra o microrganismo invasor.

 

IMUNIDADE ADQUIRIDA

O corpo humano, além da imunidade inata, tem a capacidade de desenvolver imunidade específica, extremamente potente contra agentes invasores, como bactérias, vírus, toxinas, entre outros (GUYTON & HALL, 2006). Este tipo de imunidade de acordo com Malagutti (2011) caracteriza-se por uma resposta, em longo prazo, conferida pela manutenção da resposta imunológica ao antígeno específico e/ou pela indução de células de memória imunológica, uma vez que podem ser eficazes o bastante na reativação dos mecanismos efetores, caso reexpostos ao patógeno.

Observa-se que a imunidade específica ou adquirida ou adaptativa apresenta especificidade para antígenos e memória imunológica. Quando o individuo apresenta mecanismos de defesa específicos contra determinado agente infeccioso, seja decorrente de estímulo prévio ou por ter recebido anticorpos específicos, diz-se que é dotado de imunidade específica e/ou adquirida contra o patógeno em questão. Guyton & Hall (2006) descrevem que esse tipo de imunidade é induzido por um sistema imune especial, onde os anticorpos e/ou linfócitos ativados produzidos, atacam e destroem os microrganismos invasores específicos e/ou as toxinas. Além disso, há no organismo dois tipos básicos e intimamente relacionados de imunidade adquirida. A imunidade humoral, ou imunidade de células B, onde o organismo produz anticorpos circulantes, que são globulinas no plasma sanguíneo, capazes de atacar os agentes invasores. E, imunidade celular, ou imunidade de células T, que é obtido pela formação de grande número de linfócitos T ativados, cuja função consiste, especificamente, em destruir o agente estranho. Conforme mencionado no Manual do CRIE (2006, p. 25): “A especificidade é exercida por meio de anticorpos (imunidade humoral) e células programadas para combater antígenos específicos (imunidade celular)”.

                    Esquema simplificado de resposta imunológica

Referências: 

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Manual dos centros de referência para imunobiológicos especiais – Brasília: Ministério da Saúde, 2006.
  • PEAKMAN, M. & VERGANI D. Imunologia: básica e clínica – Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. 
  • FORTE, W. C. N. Imunologia: do básico ao aplicado. 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 2007. 364 p.
  • GUYTON, A.C.; HALL, J.E. Tratado de fisiologia médica. 11. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. 
  • MALAGUTTI, W. (Organizador). Imunização, imunologia e vacinas. Rio de Janeiro: Rubio, 2011.
  • MURPHY, K.; TRAVERS, P.; WALPORT, M. Imunobiologia de Janeway. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. 885p
  • ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A.H. & PILLAI, S. Imunologia Celular e molecular. 6 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.