História das Vacinas

Há mais de mil anos os chineses desenvolveram a variolação, que era uso de material obtido de pústulas de pacientes com varíola, geralmente de casos leves, para infectar por via nasal, outras pessoas com a intenção de induzir um quadro brando da doença.

De maneira semelhante à variolação, era uma prática popular na Ásia Central a infecção intencional com material retirado de úlceras de leishmanise cutânea, com intuito de induzir lesão em área não exposta, protegendo as pessoas de terem lesões desfigurantes.

Foi introduzida na Europa por Lady Mary Wortley Montagu, esposa do embaixador britânico junto ao Império Otomano no início do século XVIII.

No Estados Unidos, então colônia britânica, a variolação foi introduzida pelo reverendo Cotton Mather, que aprendeu a técnica com escravos africanos.

Foi com conhecimento prévio da variolação que Edward Jenner (1749-1823)desenvolveu a vacinação com material retirado de vacas leiteiras ao observar que as ordenhadoras da região do condado de Gloucester eram resistentes à varíola. Alguns fazendeiros da região, infectavam sua família com material de lesões da varíola bovina, ou cowpox.

Edward-Jenner

THOM, Robert. “Jenner e a Vacina Contra a Varíola”, 1950.

Em 1796, Jenner demonstrou que a inoculação com varíola bovina poderia proteger contra a varíola humana. Ao observar que pessoas que ordenhavam vacas não contraíam a varíola, desde que tivessem adquirido a forma animal da doença, Jenner extraiu o pus da mão de uma ordenhadora que havia contraído a varíola bovina e o inoculou em um menino saudável, James Phipps, de oito anos, em 04 de maio de 1796. O menino contraiu a doença de forma branda e logo ficou curado. Em 1º de julho, Jenner inoculou no mesmo menino líquido extraído de uma pústula de varíola humana. James não contraiu a doença, o que significava que estava imune à varíola.

Rapidamente se percebeu que a vacinação era muito mais segura do que a variolação que, além de trazer um risco de morte, muitas vezes dava início a epidemias da doença. A vacinação se popularizou em pouco tempo, tendo sido adotada pelos exércitos de Napoleão.

No Brasil a vacinação antivariólica foi introduzida já em 1804, por Felício Caldeira Brandt. Foi somente no final do século XIX, com o desenvolvimento da microbiologia que se tornou possível obter vacinas por meio de sistematização em laboratório.

Estudando a cólera aviária, uma doença causada pela Pasteurella multocida, uma bactéria gram-negativa, Pasteur percebeu que após diversas passagens in-vitro, essa bactéria perdia sua virulência, sem, no entanto, perder sua capacidade antigênica.

Foi baseado nesse princípio e técnica que Pasteur desenvolveu a vacina contra a raiva, utilizada pela primeira vem em 1885.

Ao longo da primeira metade do século XX, surgem a vacina BCG e a contra febre amarela. Essas duas vacinas, ainda que tenham sido desenvolvidas com tecnologia hoje superada, continuam sendo utilizadas, a BCG inclusive é a vacina mais amplamente utilizada em todo o mundo.

Foi somente em 1949, no entanto, que o desenvolvimento técnico permitiu um salto no desenvolvimento de vacinas: o cultivo de vírus em linhagens celulares in-vitro que permitiu a obtenção de grande quantidade de vírus para estudo e posteriormente para a produção de vacinas.

Em 1954, Salk obteve a vacina inativada contra a poliomielite. Durante duas décadas diversas vacinas de vírus vivo atenuado foram obtidas: poliomielite, sarampo, rubéola e caxumba. A vacina contra varicela é o mais recente fruto desta tecnologia.

A primeira vacina a ser desenvolvida por manipulação molecular foi a da hepatite B, em que o gene responsável pela produção dos antígenos de superfície do vírus são introduzidos em leveduras que passam a produzir o antígeno em grande quantidade. Outras vacinas obtidas de maneira análoga são as contra o papilomavírus humano (HPV) e dengue.

Outras vacinas são produzidas utilizando apenas componentes do micro-organismo, porém não por manipulação molecular, e sim por processo de purificação. Essas são as vacinas que utilizam polissacarides da cápsula bacteriana, como as vacinas contra o meningococo, o pneumococo e o H. Influenzae b.

Outro aspecto da história das vacinas, muitas vezes relegado a um segundo plano, foi o aperfeiçoamento das técnicas e dos princípios dos ensaios clínicos, que permitem avaliar com maior precisão a eficácia e segurança de uma vacina.

A perspectiva para o desenvolvimento de novas vacinas é ampla e permite enxergar ao longe vacinas obtidas por biologia molecular que serão mais imunogênicas e mais seguras, pois conterão apenas os componentes necessários.

Muitas doenças ainda desafiam a capacidade da biologia em desenvolver vacinas, entre elas a AIDS.

 

Referências: 

  • SILVA, L. J. da; MOURA, M. M de; KFOURI, R. de A. Curso teórico-prático em Imunizações. Sociedade Brasileira de Imunizações – SBIM, 2012.

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